A Idade Moderna está se iniciando. O mundo passa por importantes transformações no século XVI. Os grandes descobrimentos e o comércio com as colônias européias do Novo Mundo contribuem com a revolução econômica, primeira etapa do capitalismo moderno. A Europa está em efervescência: começam a se formar os grandes Estados modernos: a Igreja passa pela Reforma e pela Contra-Reforma; o movimento artístico, intelectual e literário é mais intenso do que nunca.
A Espanha, sob o reinado de Carlos V – filho de Filipe I, o Belo, Carlos I herdou o trono da Espanha em 1516 e passou ser chamado de Carlos V ao tornar-se imperador do Sacro Império Romano-Germânico, em 1519 – está envolvida em guerras contra os mouros no norte da África.
Nesse período nasce em Alcalá de Henares, Castilha, em 1547, Miguel de Cervantes Saavedra, filho de um modesto barbeiro-cirurgião e de uma plebéia, que em busca de melhores condições de vida, vagueiam pelo interior da Espanha, de cidade em cidade.
Cervantes, quarto filho do casal, cresce sem cuidados e sem conforto. Sua pouca educação formal lhe é ministrada por volta dos vinte anos pelo mestre Juan López de Hoyos, um humanista espanhol. É dessa época seu primeiro trabalho literário: um soneto em homenagem a Isabel de Valois, esposa de Felipe II.
Cervantes passa a assistir às curtas representações teatrais – os intermédios – do também espanhol Lope de Rueda, de quem mais tarde seguiria o gênero.
O contato com estudantes e aventureiros desperta em Cervantes o desejo de conhecer outros povos e países, e ele então aceita o convite de um nobre cardeal para servir em sua casa, na Itália. Esse país assiste ao crepúsculo do Renascimento, movimento artístico revolucionário que teve como expoentes Rafael, Bramante, Michelangelo, Leonardo da Vinci, entre outros, e que produziram estupendas obras-primas.
Aos 24 anos junta-se ao exército espanhol e luta com bravura contra os turcos na Batalha de Lepanto, na costa oeste da Grécia. As forças cristãs da Santa Liga saem vitoriosas, mas Cervantes é seriamente ferido no peito e perde o movimento da mão esquerda. Após um período de recuperação e depois de outra expedição militar em 1575 ao norte da África, é preso por corsários em seu regresso à Espanha. Passa cinco anos de angústia e sofrimento no cativeiro em Argel. Só é libertado quando uma alta quantia – recolhida de familiares, alguns fidalgos e padres compadecidos – paga o resgate imposto pelos turcos.
De volta a sua cidade natal, dele ninguém mais se lembra: nem medalhas, nem a prometida promoção a capitão, apenas dívidas. Engaja-se como soldado raso nas tropas de Filipe II para sobreviver, mas pouco tempo depois, desiludido com a carreira militar e sem dinheiro depõe a espada.
Em 1581 em Madri, começa a escrever Galatéia.
Em 1584 Cervantes casa-se com Catalina Palacios, uma mulher quase vinte anos mais nova, porém falta-lhe o gosto pelas coisas domésticas e o apego à família e ao lar. Calalina não aprova seu espírito aventureiro nem tolera a enteada, ilegítima, que ele levara consigo. Um ano depois, com a traição da mulher, advém o naufrágio do casamento.
Nada lhe resta senão partir para Madri, onde desempenha modestíssimos trabalhos, como, entre outros, o de comissário de provisões, em que recolhe trigo e azeite para a campanha da Invencível Armada, a fabulosa esquadra criada por Filipe II para conquistar a Inglaterra. Cansa-se também dessa vida, e tudo o que quer é silêncio para escrever, concluir Galatéia, seu primeiro livro, iniciado ainda no seu período de cativeiro na Argélia. Publicada em 1585 essa obra já demonstra seu talento, mas não lhe traz compensações financeiras. Com afinco, até 1587 escreve cerca de trinta peças de teatro.
Em 1593, com a destruição da Invencível Armada, perde o cargo de comissário. Mas, enfim, precisa viver e passa então a exercer a função de coletor de impostos. Homem livre, dado a andanças e pouco afeito a números, é injustamente acusado de desvios de verbas. Até que se prove sua inocência, passa um período encarcerado em Sevilha, onde, supõe-se, começa a escrever a primeira parte de Dom Quixote, o Engenhoso Fidalgo de la Mancha.
Em 1605, aos 57 anos, o guerreiro e poeta Miguel de Cervantes publica a primeira parte de Dom Quixote, e com ela atinge a tão esperada consagração literária. O êxito é imediato. Conhece então, por breve tempo, um pouco das homenagens que lhe seriam prestadas ao longo dos séculos. Em seu primeiro ano de publicação, a obra tem seis edições, e não tarda a ser traduzida para o inglês e para o francês. A fama de Quixote, símbolo do espírito idealista e aventureiro do ser humano leva o nome de Cervantes além-fronteira.
Em 1613, com 66 anos de idade, publica Novelas Exemplares, uma coleção de contos curtos, e um ano mais tarde, um poema satírico, Viagem ao Parnaso. Tenta ainda compor versos, mas acaba reconhecendo não ser essa a sua maior habilidade. Satirizando preconceitos e algumas profissões, dedica-se ao teatro, deixa de lado a poesia.
Já velho e doente em 1614, Cervantes participa de um concurso de poesias. Obtém o primeiro lugar, mas isso é nada para um gênio com o seu talento. Publica Oito Comédias e Oito Intermédios e a segunda parte de Dom Quixote em 1615, completando sua novela de cavalaria, obra máxima do gênero que predominou na Idade Média.
Sem amigos, vive só, pobre, doente e esquecido.
Incompreendido, o mundo já não lhe interessa. Em silêncio, recolhe-se a um convento franciscano. E como convém a um franciscano, um túmulo despojado, sem lápide, serve-lhe de última morada em abril de 1616.